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Características

Hipoglicemia

Todas as pessoas com Diabetes tipo 1 (DM1) ambicionam ter um bom controlo metabólico que lhes permita uma sensação de bem-estar, executar as suas tarefas diárias e ter qualidade de vida.

Ao longo deste texto procurar-se-á abordar a temática da hipoglicemia, como preveni-la e como tratá-la.

A hipoglicemia é uma das mais frequentes complicações agudas associadas à DM1, que preocupa o próprio, a família, os profissionais de saúde e os cuidadores das crianças/jovens. A imprevisibilidade do quotidiano das pessoas, principalmente das crianças e dos jovens, é um dos fatores que mais contribui para a ocorrência das hipoglicemias. Um dos aspetos mais importantes no ensino é tentar prevenir a ocorrência de hipoglicemias e caso isso não seja possível, perceber quais os sintomas associados, a correção que deve ser feita e quais as causas que contribuíram para a mesma.

O International Hypoglycaemia Study Group (2015) explica que o controlo dos nossos níveis de glicemia depende do equilíbrio entre as hormonas insulina (que ajuda a baixar os níveis de glicose no sangue) e o glucagon (que ajuda a aumentar os níveis de glicose no sangue), sendo ambas produzidas no pâncreas. Ora se o pâncreas da pessoa com DM1 não produz insulina e a pessoa necessita de administrar insulina exógena (produzida fora do corpo) este equilíbrio é mais difícil de alcançar pois o próprio não pode “retirar” a insulina administrada e assim o glucagon tem mais dificuldade na atuação. É este o mecanismo que conduz a hipoglicemias na população com DM1 e protege nas pessoas que não têm diabetes.

Pode-se caracterizar a hipoglicemia como uma redução dos níveis de glucose no sangue para valores inferiores a 70 mg/dl (Trang, T. Ly et al (2014)), International Hypoglycaemia Study Group (2015) e Morales, Javier e Schneider, Doron (2014).

As hipoglicemias podem ser classificadas como sintomáticas, se a pessoa tem sintomas associados quando ocorre a hipoglicemia, ou assintomáticas, se a pessoa não tem sintomas associados. Por outro lado podem igualmente ser classificadas como ligeiras, moderadas ou graves. Esta última é muitas vezes definida como a ocorrência de uma hipoglicemia na qual se associa a tonturas ou alteração da consciência e o próprio necessita de ajuda de outra pessoa para a tratar. No entanto, as crianças necessitam sempre de ajuda de um adulto na correção das hipoglicemias, pelo que este critério não serve para a classificação da hipoglicemia. Assim pode-se classificar de hipoglicemias graves aquelas em que a criança/jovem tem alteração do estado de consciência (que não engloba só o desmaio, mas também letargia, confusão mental, entre outras) ou quando são feitas várias correções com glucose e o valor mantém-se inalterado e abaixo de 70 mg/dl.

Custos diretos e indiretos

A hipoglicemia é um evento que tem um impacto importante na vida das pessoas com DM1 não só na produtividade do indivíduo como nos gastos em saúde. Segundo Morales, Javier e Schneider, Doron (2014) um episódio de hipoglicemia leve a moderada pode originar um gasto de $472. Para além disso, segundo os mesmos autores, os custos indiretos relacionados com o absentismo laboral ou a simples quebra de produtividade relacionada com o período em que se está a corrigir a hipoglicemia podem chegar aos $93,47, representando uma perda laboral na ordem das 8h a 16h de trabalho por mês.

Assim percebe-se a importância da prevenção na tentativa minimizar este impacto.

 

Fatores de risco

Trang, T. Ly et al (2014) referem que os fatores de risco mais comuns para a ocorrência de hipoglicemias são a idade, sendo que crianças mais pequenas têm maior risco pela necessidade de doses de insulina menores, pela rotina diária pouco previsível, pelo apetite inconstante e dificuldade na perceção das hipoglicemias; o historial de hipoglicemias graves e a ocorrência de episódios de hipoglicemia assintomáticas.

Os fatores precipitantes de hipoglicemias mais comuns são:

Incorreta contagem de hidratos de carbono;

  • Atividade física não programada;
  • Doença intercorrente que inclua vómitos, diarreia ou outras alterações gastrointestinais;
  • Tempo prolongado entre refeições ou omissão das mesmas;
  • Insulina em excesso;
  • Técnica de administração de insulina incorreta (consultar o artigo “A DM1 e a e insulina”);
  • Ingestão de álcool;
  • Insuficiência renal ou hepática.

Trang, T. Ly et al (2014) e International Hypoglycaemia Study Group (2015)

 

Sinais e sintomas

A melhor forma de lidar com uma hipoglicemia é tentar evitar que ela ocorra. Para isso é necessário uma abordagem global da criança/jovem e comunidade onde este está inserido.

Em primeiro lugar a equipa de saúde deve garantir que os cuidadores, no caso das crianças mais pequenas, ou o próprio no caso dos jovens saibam:

  • A técnica de administração de insulina,
  • Ajustar as doses de insulina,
  • Avaliar a glicemia capilar com regularidade ou caso suspeitem de alguma alteração na mesma,
  • Praticar uma alimentação saudável, equilibrada e fracionada,
  • Ajustar a insulina à atividade física,
  • Corrigir uma hipoglicemia.

Neste sentido torna-se importante incluir a comunidade nesta prevenção, proporcionando (in)formação objetiva e simples às escolas ou outros grupos que contatem com a criança/jovem como por exemplo os escuteiros, clubes desportivos, etc.

 

Prevenção 

A hipoglicemia é um evento que implica um tratamento imediato. Qualquer criança ou jovem com DM1 que tenha um valor de glicemia capilar <70 mg/dl está perante uma hipoglicemia.

Assim o procedimento a adotar passa pela ingestão de glicose sob a forma de gel ou pastilhas de glicose, sumo, mel ou açúcar (quantidade de acordo com o peso corporal da pessoa, Ilustração 2), aguardar entre 10 a 15 minutos para permitir a absorção da glicose e voltar a reavaliar a glicemia.

As crianças e jovens com DM1 e idade inferior a 18 anos devem corrigir a hipoglicemia até obterem uma glicemia superior 100 mg/dl e os jovens com idade superior a 18 anos devem corrigir a hipoglicemia até aos 70 mg/dl. Enquanto a glicemia não atingir esses valores, deve-se repetir a ingestão de glicose as vezes que forem necessárias. Após se atingir o valor de referência, recomenda-se a ingestão de hidratos de carbono de absorção lenta para manutenção dos valores (ex: pão, bolachas ou a refeição).

Uma mensagem importante a reter é que nenhuma criança ou jovem com DM1 que esteja com uma hipoglicemia deve ficar sozinha ou ser encaminhada para casa. Em primeiro lugar corrige a hipoglicemia na presença de um adulto e depois retomará a atividade que interrompeu.

 

Tratamento de hipoglicemias graves

Quando ocorre uma hipoglicemia grave deve-se ter presente alguns passos importantes. Em caso de inconsciência (desmaio) aconselha-se colocar a criança/jovem de lado (posição lateral de segurança). Em seguida deve-se administrar o Glucagen®, que é um kit indispensável a qualquer pessoa com DM1 que inclui uma seringa e um frasco onde se encontra a hormona glucagon que abordámos anteriormente. A administração desta hormona faz com que sejam libertadas as reservas de glicose do corpo, para que se reestabeleça o mais depressa possível os valores de glicemia. Por último deve-se, se necessário, contactar a linha de emergência, no caso o 112 para pedir apoio técnico.

Para a preparação desta injeção retira-se a seringa da embalagem, solta-se a proteção do frasco de vidro e espeta-se a agulha da seringa no mesmo, transferindo o líquido da seringa para dentro do frasco. Após esse passo, deve agitar a solução até esta ficar com uma aparência homogenia. Em seguida deve-se retirar o líquido para dentro da seringa, retirá-la do frasco e voltá-la com a agulha para cima para se retirar o excesso de ar. A administração de Glucagen® deve ser intramuscular, pelo que a administração é aconselhada na face lateral externa das coxas. No caso das crianças com menos de 25Kg de peso deve-se fazer 0,5ml, ou seja, metade da dose. No caso das crianças/jovens com peso superior a 25Kg deve-se administrar a totalidade da dose, isto é 1 ml. Pode saber que dose administrar ao olhar para a seringa, pois estão marcados os traços indicativos de 0,5ml e 1,0ml.

Hipoglicemia com bomba de insulina

Os utilizadores de dispositivos de perfusão subcutânea contínua de insulina (bomba de insulina) devem corrigir a hipoglicemia de maneira semelhante às pessoas que utilizam esquema de caneta, tendo em atenção que com valores de glicemia <60 mg/dl devem colocar a bomba de insulina em modo “STOP”. Esta deve ser reiniciada 30 minutos após ter sido desligada, ou quando a hipoglicemia tiver sido corrigida, caso 30 minutos não tenham sido suficientes. É ainda importante realçar que entre os 60-70 mg/dl o utilizador de bomba de insulina deve ingerir glicose sob a forma de gel ou pastilhas de glicose, sumo, mel ou açúcar (quantidade de acordo com o peso corporal da pessoa, Ilustração 2), e reavaliar a cada 10/15 minutos, mantendo a bomba de insulina em funcionamento.

Os valores padrão para que a hipoglicemia esteja corrigida mantêm-se iguais aos das pessoas que utilizam canetas, isto é, 100 mg/dl para crianças e jovens com idade inferior a 18 anos e de 70 mg/dl para pessoas com idade superior a 18 anos.

Todas as pessoas com DM1 devem-se sempre fazer acompanhar por caneta de insulina, máquina para pesquisa da glicemia e respetivas tiras, máquina para pesquisa da cetonemia e respetivas tiras, por glicose (ex: gel ou pastilhas, açúcar, mel, sumo) um snack (ex: bolachas tipo Maria, barra de cereais, etc.) e contacto em caso de emergência para fazer face a qualquer imprevisto que possa surgir.

Por último, fica a mensagem que a hipoglicemia é uma situação que pode ser prevenida, mas caso isso não seja possível, é importante corrigi-la corretamente para se sentir bem e seguro.

 

Bibliografia 

International Hypoglycaemia Study Group (2015). Minimizing Hypoglycemia in Diabetes. Diabetes  Care, volume 38, p.1583-1591.

McCrimmon, Rory J. e Sherwin, Robert S. (2010). Hypoglycemia in Type 1 Diabetes. Diabetes, volume 59, p.2333-2338.

Morales, Javier e Schneider, Doron (2014). Hypoglycemia. The American Journal of Medicine, volume 127, número 10ª.

Shaffie, Gita et al (2012). The importance of hypoglycemia in diabetic patients. Journal of Diabetes & Metabolic Disorders, volume 11 (Suplemento 17), P. 1-7.

Trang, T. Ly et al (2014). ISPAD Clinical Practice Consensus Guidelines 2014 Compendium: Assessement and management of hypoglycemia in children and adolescentes with diabetes. Pediatric Diabetes, volume 15 (Suplemento 20), P. 180-192.

Wisting, Line et al (2015). Metabolic Control and Illness Perceptions in Adolescents with Type 1 Diabetes. Journal of Diabetes Research, article ID 456340.

Yeoh, Ester et al (2015). Interventions that restore awareness of hypoglycemia in adults with type 1 diabetes: a systematic review and meta-analysis. Diabetes  Care, volume 38, p.1592-1609.

 


AUTOR:

Duarte Matos

Enf. Duarte Matos,
Enfermeiro da Pediatria da APDP

 

 

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