Farmácias | Apoio ao cliente: 800 200 891 (de 2ª f a 6ª f das 09h00 às 18h00) | pesquisa Pesquisar

Características

Gravidez em Mulheres com Diabetes

Por ter diabetes tipo 1 há 20 anos, desde sempre me disseram que quando quisesse engravidar, tinha que ser tudo bem planeado. Seria uma gravidez não de 9, mas de 12 meses no mínimo, já incluindo pelo menos 3 meses de preparação até atingir o controlo metabólico ideal. Ao longo destes anos, fui assistindo ao nascimento de vários filhos de mães com diabetes tipo 1, tudo correu bem e filhos e mães estão saudáveis. Também fui tendo conhecimento de outros casos em que mulheres com diabetes tipo 1 há muitos anos preferem não ter filhos para não lhes surgirem complicações durante ou após a maternidade.

O meu interesse no tema “Gravidez em Mulheres com Diabetes (ou Diabetes pré-existente)” levou-me a pesquisar artigos e estudos que fundamentam os riscos e os procedimentos a ter por uma mulher com diabetes tipo 1 ou tipo 2 que queira engravidar. Através desta pesquisa, percebi que a existência de estudos sobre gravidez em mulheres com diabetes pré-existente é pouco frequente.

A gravidez na diabetes pré-existente

A gravidez na diabetes pré-existente está a tornar-se uma preocupação cada vez maior devido não só ao aumento da prevalência da diabetes tipo 1 no geral, mas essencialmente ao aumento da prevalência de diabetes tipo 2 em mulheres em idade fértil. A gravidez em mulheres com diabetes está associada a um substancial aumento dos riscos de mortalidade perinatal e anomalias congénitas. Os resultados na gravidez da mulher com diabetes podem ser melhorados por meio de intervenções para melhorar o controlo glicémico da mulher antes e durante a gestação. Um dos objetivos da Declaração de St. Vincent é precisamente que "os resultados da gravidez de mulheres com diabetes devem aproximar-se dos resultados da gravidez de mulheres sem diabetes.

Sabe-se que a gravidez de mulheres com diabetes mal compensada tem um risco aumentado de complicações da gestação, incluindo morte fetal, mortalidade perinatal e malformações congénitas. A hiperglicemia no período de conceção e nas primeiras semanas pós-conceção representa uma particular preocupação pois é responsável por grande risco de anomalias congénitas.

Estudos

Estudos têm demonstrado taxas reduzidas de malformações congénitas e menor taxa de mortalidade perinatal em mulheres com aconselhamento em consultas de pré-conceção, onde o controlo glicémico é otimizado antes e durante a gravidez. Inúmeros avanços ao longo da última década têm o potencial de reduzir as taxas de maus resultados em mulheres com diabetes. Tais avanços incluem a utilização de análogos de insulina, a monitorização contínua de glucose e o desenvolvimento de consultas de pré-conceção.

De 1996 a 2010, encontra-se uma duplicação da taxa ajustada por idade na gravidez em diabetes pré-existente. Embora as taxas de anomalias congénitas tenham diminuído cerca de 23% em filhos de mulheres com diabetes pré-existente ao longo da última década, o risco dessas complicações permanece muito elevado. A mortalidade perinatal também é significativamente maior entre os filhos de mulheres com diabetes pré-existente e, infelizmente, este risco não se alterou significativamente. Com o dobro da incidência de gravidez em mulheres com diabetes (diretamente relacionado com a maior prevalência de mulheres com diabetes tipo 2 em idade fértil) ao longo dos últimos 14 anos, a carga global de diabetes na gravidez sobre a sociedade está a crescer. São necessários maiores esforços para reduzir esses resultados adversos graves.

A taxa de mulheres com diabetes pré-existente aumentou para 1,5 por 100 mulheres. Este aumento é consistente com estudos realizados nos EUA e no Reino Unido. Um estudo em Ontario, no Canada, demonstrou que as taxas de anomalia congénita diminuíram, demonstrando que o risco relativo de anomalias congénitas entre filhos de mulheres com diabetes gestacional estreita-se significativamente em comparação com as mulheres sem diabetes. Este fator demonstra um grande avanço e motivo de esperança para as mulheres com diabetes, e acredita-se que o aumento do aconselhamento em consultas de pré-conceção e consciencialização por parte das equipas de saúde e das mulheres com diabetes relativamente à importância de um excelente controlo glicémico antes da gravidez pode diminuir as taxas de anomalias para taxas semelhantes às da população em geral. As taxas, no entanto, permanecem substancialmente elevadas em comparação com as mulheres sem diabetes, com um risco quase duas vezes maior em mulheres com diabetes pré-existente. As mulheres com diabetes pré-existente que têm filhos com anomalias congénitas tendem a ser mais jovens. Este facto pode refletir num planeamento reduzido da gravidez numa faixa etária mais baixa.

Desta forma, é patente a necessidade de aumentar o esforço para educar as mulheres jovens com diabetes, mesmo as que se encontram na adolescência, pois através da educação podem-se melhorar as taxas de anomalias sobretudo em mães jovens. Também é fundamental aumentar os esforços na educação e capacitação das mulheres com diabetes tipo 2, que têm as mais baixas taxas de atendimento de consultas de pré-conceção (19% vs. 35% em mulheres com diabetes tipo 1).

Sabe-se que as mulheres com diabetes pré-existente continuam a ter uma taxa significativamente mais elevada de mortalidade perinatal, e este ritmo não diminuiu, apesar das taxas mais baixas de anomalias congénitas. Isto é consistente com outros estudos que continuam a apresentar taxas de mortalidade perinatal elevados em mulheres com diabetes pré-existente. Dois estudos que analisaram a tendência ao longo do tempo mostraram um declínio não significativo em mortalidade perinatal. O mau controlo glicémico e a morbilidade associada podem ser responsáveis pela maioria das mortes. A obesidade também é um fator de risco independente para a mortalidade perinatal e pode estar a desempenhar um papel fulcral juntamente com a hiperglicemia, especialmente em mulheres com diabetes tipo 2 durante a gravidez que muitas vezes são obesas, cujos casos relatados apresentam maiores taxas de mortalidade perinatal do que as mulheres com diabetes tipo 1.

Abordo agora um estudo que identifica fatores de risco para resultados adversos e potenciais fatores de proteção. A mortalidade perinatal é quase 50% menor entre as mulheres que foram vistas por um obstetra, o que significa que um fator de proteção é o aumento da vigilância destas gravidezes de alto risco. Conclui-se também que a diminuição da educação e sensibilização sobre o planeamento da gravidez, juntamente ao reduzido acesso aos cuidados, pode aumentar estes riscos. Finalmente, as mulheres com diabetes gestacional tiveram uma menor taxa de mortalidade perinatal em comparação com as mulheres sem diabetes. Esta é uma descoberta surpreendente. Uma possível explicação pode ser que as mulheres com diabetes gestacional são vistas com mais frequência pelos obstetras durante a gravidez do que as mulheres sem diabetes. Percebeu-se que as idas frequentes a consultas de obstetrícia são uma forma de prevenção da mortalidade perinatal em ambos os casos, tanto em mulheres com diabetes gestacional como em mulheres grávidas com diabetes pré-existente.

Conclusão

Conclui-se que as mulheres mais novas e de nível socioeconómico mais baixo, bem como aquelas que não têm consultas de saúde reprodutiva com frequência e, principalmente, a falta de preparação da gravidez através de consultas de pré-conceção em mulheres com diabetes são o foco dos problemas de anomalias congénitas. Também o problema da diabetes tipo 2 não diagnosticada em mulheres que engravidam, ou das consultas de diabetes pouco especializadas em muitas mulheres com diabetes tipo 2 cujo acompanhamento antes e durante a gravidez não é o adequado. Além disso, muitas mulheres com diabetes tipo 2 em idade fértil têm pouca experiência a viver com a diabetes, o que também não facilita os processos de autocontrolo.

Chegando a estas conclusões, e apesar dos poucos estudos em gravidez de mulheres com diabetes pré-existente, percebe-se como atuar para que os cuidados às mulheres com diabetes sejam mais adequados e eficazes. Algumas limitações destes estudos incluem o facto de que não se diferenciou mulheres com diabetes tipo 1 de mulheres com diabetes tipo 2, o que limita a capacidade de interpretar completamente os dados. No entanto, com o crescimento das taxas de diabetes tipo 2 no geral e o aparecimento da diabetes tipo 2 em mulheres cada vez mais novas, na idade fértil, grande parte desse aumento é provavelmente devido a um aumento da diabetes tipo 2 durante a gravidez. Esta hipótese é apoiada por outras pesquisas de mulheres com diabetes realizados no Reino Unido e nos EUA, onde os aumentos observados na prevalência de gravidez em mulheres com diabetes pré-existente foram encontrados a ser impulsionados principalmente por um aumento da diabetes tipo 2.

Com as taxas sempre crescentes de diabetes na gravidez e a natureza grave das complicações perinatais, o peso destas gestações de alto risco está a aumentar. Embora tenhamos percorrido um longo caminho na melhoria dos cuidados para as mulheres com diabetes na gravidez, são necessários mais esforços para inverter a tendência para o aumento da diabetes tipo 2 em mulheres em idade fértil e para diminuir a prevalência destes resultados perinatais graves em mulheres com diabetes através de um melhor cuidado na pré-conceção e na educação da sociedade em geral.

Para uma mulher com diabetes, as recomendações gerais de controlo da diabetes são:

 

Antes de engravidar

Durante a gravidez

hA1c

≤ 6,5%

≤ 6,5%

Glicemia em jejum

80-110 mg/dl

60-90 mg/dl

Glicemia 1h após a refeição

100-140 mg/dl

100-120 mg/dl

 

É importante relembrar que estes números são padrões. Não são valores personalizados nem indicados a todas as pessoas. Há que ter em consideração os inúmeros aspetos relativos à diabetes. A meu ver, é fundamental que todas as mulheres com diabetes que queiram engravidar tenham consulta de pré-conceção e sigam um plano personalizado e aconselhado pela equipa de saúde com especialização nesta área.

Deixo-vos uma fotografia da Paula Dias Klose, grávida de 34 semanas, na sua segunda gravidez.

A Paula tem 34 anos, diabetes tipo 1 desde 1994 e tem dois filhos fantásticos, perfeitos e que eu adoro. Correu tudo bem enquanto grávida dos dois filhos, ambos nasceram bem, com peso e tamanho normal, e encontram-se todos saudáveis. Obrigada Paula por seres uma das minhas referências na vida!

gravidez

Bibliografia

Bell R, Bailey K, Cresswell T, Hawthorne G, Critchley J, Lewis-Barned N, Northern Diabetic Pregnancy Survey Steering Group. Trends in prevalence and outcomes of pregnancy in women with preexisting type I and type II diabetes. BJOG 2008;115:445452

Beyerlein A, von Kries R, Hummel M, et al. Improvement in pregnancy-related outcomes in the offspring of diabetic mothers in Bavaria, Germany, during 1987-2007. Diabet Med 2010; 27:1379–1384

Denice S. Feig, Jeremiah Hwee, Baiju R. Shah, Giliian L. Booth, Arlene S. Bierman, Lorraine L. Lipscombe. Trends in Incidence of Diabetes in Pregnancy and Serious Perinatal Outcomes: A Large, Population-Based Study in Ontario, Canada, 1996–2010. Diabetes Care. 2014; 37(6):1590-1596

 

AUTORA:

Alexandra Costa

Alexandra Costa, DT1 – Coordenadora do NJA (Núcleo Jovem da APDP)

 

Pesquisa Pesquisar

Aviso de privacidade

A sua privacidade é importante para nós. Actualizamos a nossa Politica de Privacidade de acordo com o novo Regulamento Geral de proteção de dados da EU.
Veja a Politica de Privacidade aqui.