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Características

Diabetes na Escola

A diabetes tipo 1 (DM1) é uma das doenças crónicas mais comuns em crianças e jovens em idade escolar. Segundo o Observatório Nacional da Diabetes 2014, existem 1874 casos de DM1 no intervalo de idades entre os 0-14 anos e 3262 casos entre os 0-19 anos em Portugal. Segundo o mesmo relatório registaram-se 217 novos casos entre os 0-14 anos e 311 novos casos entre os 0-19 anos.

As crianças e adolescentes com DM1 passam uma grande parte do seu dia em ambiente escolar, tal como qualquer outra criança ou adolescente. Neste sentido, para que as crianças e adolescentes com DM1 possam ter um desempenho escolar com qualidade, seguro e normal, torna-se importante refletir sobre os desafios que a DM1 acarreta para todos os intervenientes neste processo: pais, criança ou adolescente, comunidade escolar e profissionais de saúde.

É muito frequente que o regresso à escola após o diagnóstico de DM1 seja um momento de grande ansiedade para os pais mas também para a equipa escolar. Afinal aquela criança/adolescente não precisava de nenhum cuidado extra e agora as coisas são diferentes. É normal haver preocupação e medo por parte de todos os intervenientes, mas a aquisição de conhecimentos é fundamental para a adaptação da criança/jovem ao ambiente escolar.

Amillategui, Blanca et al (2009) expõem que segundo estudos recentes, uma das maiores preocupações por parte dos pais é a falta de conhecimento sobre DM1, por parte das escolas. As crianças/jovens, por sua vez, relatam que uma das suas maiores preocupações são o reconhecimento das hipoglicemias e a administração de insulina durante o período letivo. Nesse mesmo artigo os autores referem que pais, crianças/jovens e a equipa escolar sentem necessidade de obterem mais informação sobre a DM1.

Segundo Lawrence, Sarah E. et al (2015) referem ainda que a diabetes e as suas complicações agudas e crónicas têm, a longo prazo, impacto pessoal, social e económico. O controlo da DM1 reduz o risco de ambas as complicações, sendo para isso necessário a avaliação mais frequente da glicemia, a administração de insulina, a contagem de hidratos de carbono (HC) e a adequação da prática de exercício físico ao regime terapêutico. Estas tarefas implicam a tomada de decisões que nem sempre são fáceis e, no caso específico das crianças, deve-se ter em conta que muitas delas ainda não adquiriram o domínio da leitura e do cálculo, que lhes possibilite a interpretação da informação.Para além desta problemática há que ter em conta que a criança ou adolescente passa uma grande parte do seu dia na escola; isso implica que o tratamento da DM1 realizado durante esse período tem grande influência no controlo metabólico. Nesse sentido Nabors, Laura et al (2003) mencionam que, melhorando os conhecimentos da equipa escolar, o controlo da DM1 torna-se mais eficaz, traduzindo-se num desempenho escolar mais satisfatório, bem como, na diminuição das  complicações associadas à DM1.

A formação à equipa escolar pode também prevenir diagnósticos tardios de DM1, muitos deles já em cetoacidose, pois as crianças/adolescentes permanecem muitas horas na escola e os pais ou cuidadores têm maior dificuldade na perceção de alterações nos hábitos de vida dos mesmos (ex. urinar muito, beber muita água, comer muito, perda de peso abrupta), detetando estes sintomas muito mais tardiamente.

Kanungo, Alok (2015) realça que o controlo da diabetes requer o suporte e colaboração da família, escola e sociedade. Assim com todos os intervenientes a trabalharem em sintonia, será certamente mais fácil ultrapassar as dificuldades e definir estratégias. A American Diabetes Association (2015) refere ainda que se deve ter atenção à dinâmica familiar, estadio de desenvolvimento, maturidade da criança ou adolescente de forma a otimizar o tratamento da diabetes, e que estas variáveis são importantes para perceber que tipo de ajuda a criança ou adolescente necessita.

A Direção-Geral de Saúde elaborou a Orientação 003/2012 de 18-01-2012, na qual procura esclarecer o que é a DM1 e transmitir direitos e deveres para todos os intervenientes na vida de uma criança e adolescente com DM1.

Em primeiro lugar define que “O tratamento indispensável e insubstituível [da DM1] é a administração de insulina de forma injetável, diariamente, por várias vezes, nomeadamente às refeições.”. Por outro lado, a referida norma elucida que “Este tratamento obriga à determinação dos valores de glicemia, aquando da sua injeção [de insulina] e sempre que se suspeite de uma redução acentuada dos valores de glicemia (hipoglicemia), em consequência do aumento da atividade física ou redução da ingestão de hidratos de carbono.”.É ainda referido nesse documento que em algumas faixas etárias as crianças ou adolescentes conseguem realizar as suas tarefas relacionadas com a DM1 e necessitam da supervisão de um adulto, noutras faixas etárias as crianças não têm destreza nem maturidade suficiente para realizar essas atividades e precisam que um adulto que as faça por eles.

Cuidado na Diabetes - Regresso às aulas Por último, a Orientação da Direção-Geral da Saúde refere ainda que “No âmbito da Escola Inclusiva e das crianças e jovens com Necessidades de Saúde Especiais a Escola identifica as situações de alunos com Diabetes tipo 1, a fim de se mobilizarem os recursos para o apoio necessário ao seu bem-estar e à sua inclusão escolar, promovendo o acompanhamento, a manutenção do tratamento e a gestão de situações intercorrentes na Diabetes”. Tendo em conta este último parágrafo deve-se referir que as escolas devem articular com o local de tratamento da DM1 e com os pais. Nesse sentido, as crianças e jovens com DM1 devem ter uma escolaridade o mais normal possível, sem objetivos de aprendizagem divergentes, nem um nível de exigência diferente das outras crianças. Estes alunos necessitam de oportunidades para recuperar aulas ou testes perdidos, uma vez que têm que ir a mais consultas que o resto das crianças e adolescentes e os pais dos mesmos devem ser avisados atempadamente de alterações à normal rotina escolar, (ex. visitas de estudo, atividades desportivas, festas, etc.) para ajuste dos esquemas terapêuticos. Também Lawrence, Sarah E. et al (2015) referem que as crianças com DM1 podem e devem ser incentivadas a fazer as atividades escolares, como qualquer outro aluno.

Esta norma visa também responsabilizar todos os intervenientes no tratamento da DM1 das crianças e jovens. Se por um lado, a escola deve contribuir como parceiro ativo dos cuidados, esta deve também receber (in)formação específica que a capacite a tratar, cuidar e vigiar os seu alunos com DM1. Os pais têm o papel de avisar a escola de alterações ao esquema terapêutico, assim como de se manterem próximos  e contatáveis. Por último, os profissionais de saúde devem colaborar na formação dos intervenientes nesse processo e acompanhar a evolução. A equipa escolar deve disponibilizar profissionais de referência que ajudem a criança/jovem no tratamento da DM1, quer seja realizando as tarefas diárias, quando a criança é pequena, quer na supervisão e ajuda na tomada de decisão quando o jovem já é capaz de a fazer; apoiar o autocuidado nos alunos com competências; providenciar o acesso fácil do aluno aos equipamentos para tratamento da DM1 (todas as crianças e jovens com DM1 devem trazer sempre consigo o aparelho de glicemia); garantir que os alunos comam os lanches ou refeições, no horário programado e que existam pacotes de açúcar e alimentos para tratar as hipoglicemias; permitir aos alunos compensar os trabalhos de casa perdidos assim como os testes em que não puderam estar presentes; aprender sobre a diabetes e efetuar um plano individual do aluno com os cuidados a serem tidos em conta ao longo do dia, com apoio da saúde escolar ou equipa de saúde que segue a DM1.

Controlo da Diabetes A formação da equipa escolar é um dos pontos determinantes do sucesso dos cuidados às crianças e jovens com DM1. Neste sentido, Lange, K. et al (2014) salientam que se devem mobilizar recursos para a formação específica sobre a injeção de insulina, a determinação da glicemia e cetonemia, o reconhecimento e tratamento da hipoglicemias e como agir em caso de situações de emergência. Para fazer face a essas necessidades a Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal (APDP) criou o curso “Cuidados à Criança e Jovem com DM1”, que é gratuito e tem como público-alvo todo à equipa escolar, desde auxiliares de ação educativa, professores, diretores, copeiras, motoristas; assim como à equipa de outras instituições nas quais as crianças e jovens estão inseridos nomeadamente, escuteiros, centros de atividades de tempos livres, etc. O grande objetivo é, em concordância com Lawrence, Sarah E. et al (2015), potenciar as capacidades das escolas ou instituições e realizar empowerment para assegurar bons cuidados às crianças e jovens com DM1.

Por último é importante salientar a necessidade de existir sentido de responsabilidade e cidadania, para que cada vez menos e, se possível, nenhuma criança ou adolescente esteja entregue a si mesmo para cuidar da sua DM1. É claro que vão surgir dificuldades, dúvidas e medos. Nem sempre as decisões serão fáceis. Também é certo que tempo e recursos humanos não abundam. Mas com uma comunicação eficaz entre todos, tendo como prioridade a criança e adolescente, tudo isso se irá dissipar. Existem felizmente muitas escolas com ótimos profissionais que têm proporcionado uma ajuda fantástica às “nossas” crianças e adolescentes com DM1, na maioria dos casos muito bem apoiadas pela equipa de saúde escolar. E não nos podemos esquecer que os pais destas crianças/adolescentes estão disponíveis e motivados para ajudar no que for preciso. O papel das escolas é precioso e determinante para o bem-estar destas crianças e adolescentes. A American Diabetes Association (2015) valoriza  a estreita comunicação e cooperação com as escolas como essencial para a otimização do tratamento da diabetes, para a segurança e maximização das oportunidades académicas.Assim fica a mensagem de que é possível melhorar a escolaridade destas crianças e adolescentes, para que esta se torne numa experiência  mais feliz, saudável e segura.

American Diabetes Association (2015). Children and Adolescents. Diabetes Care, volume 38, suplemento 1, p.S70-76.

American Diabetes Association (2015). Standarts of Medical Care in Diabetes – 2015, Abridged for Primary Care Providers. Diabetes Care, volume 38, suplemento 1, S97-S111.

Amillategui, Blanca et al (2009). Special needs of children with type 1 diabetes at primary school: perceptions from parents, children and teachers. Pediatric Diabetes, volume 10, assunto 1, p.67-73.

Direcção-Geral da Saúde (2012). Programa Nacional para a Diabetes e Programa Nacional de Saúde Escolar. Orientação da Direção-Geral da Saúde número 003/2012, data 18/01/2012.

Kanungo, Alok (2015). Myths about type 1 diabetes: Awareness and education. Indian Journal of endocrinology and Metabolism, volume 19, suplemento 1, p.24-25.

Lange, K. et al (2014). ISPAD Clinical Practice Consensus Guidelines 2014 Compendium: Diabetes education in children and adolescents. Pediatric Diabetes, volume 15 (Suplemento 20), P. 77-85.

Lawrence, Sarah E. et al (2015). Managing type 1 diabetes in school: Recommendations for policy and pratice. Paediatric Child Health, volume 20, número 1, p.35-39.

Nabors, Laura et al (2003). Children with diabetes: perceptions of supports for sel-management at school. Journal of School Health, volume 73, número 6, p.216-221.

Siminerio, Linda M. et al (2014). Care of Young Children with Diabetes in the Ghild Care Setting: A position statemente of the American Diabetes Association. Diabetes Care, volume 37, p.2834-2842.

Sociedade Portuguesa de Diabetologia (2014). Diabetes: Factos e Números 2014 – Relatório Anual do Observatório Anual da Diabetes.


 AUTOR: Duarte MatosEnf. Duarte Matos,
Enfermeiro da Pediatria da APDP
   

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