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Características

Diabetes Mellitus tipo 1 e a insulina

A insulina é fundamental e indispensável no tratamento da Diabetes Mellitus tipo 1 (DM1). Apesar da administração de insulina parecer uma tarefa rotineira para as pessoas com DM1, esta envolve questões práticas e emocionais que variam de pessoa para pessoa. Segundo Kalra, S, et al (2012) existem fatores que influenciam a técnica de administração que podem ser divididos em modificáveis (técnica de administração, dose, adesão ao tratamento, profundidade da injeção, tempo de espera entre o final da administração da dose e retirar a agulha da pele, preconceitos em relação à insulinoterapia, dor à punção, constrangimentos financeiros e disponibilidade e saber da equipa de saúde) e não modificáveis (destreza motora da pessoa, acuidade visual e auditiva da pessoa, capacidade de aprendizagem e conhecimentos base).

Como o próprio nome indica, os não modificáveis são impossíveis ou difíceis de alterar, mas os modificáveis representam fatores que podem e devem ser tidos em conta para tornar a administração de insulina o mais eficaz, agradável e segura possível.

Nesse sentido, procurar-se-á refletir sobre os diferentes temas, para que se possa ter uma ideia de como se pode aperfeiçoar a administração de insulina.

Quando se aborda o tema da administração de insulina, provavelmente o que causa maior receio é o medo da introdução da agulha. Será que vai doer? Será que irei ser capaz? Essas são questões muito comuns na consulta e que podem e devem ser trabalhadas pela equipa de saúde, utente e sua família. A experiência que cada um tem à punção é individual e única, pelo que não se pode generalizar. No entanto, a maioria das pessoas considera que a experiência não foi tão má como esperava após a ter realizado. Normalmente, a administração de insulina não é dolorosa, mas existem certas dicas que a podem tornar  menos desagradável.

Técnica de administração

Quando tiver que administrar insulina deve garantir que a insulina que vai administrar e a dose da mesma é a prescrita pelo seu médico. Existem diversos tipos de insulina de laboratórios diferentes, pelo que um erro pode acontecer. Por outro lado, existem canetas de insulina que ajudam à administração da mesma. Deve garantir que a insulina que utiliza está numa caneta do mesmo laboratório da insulina, pois só assim consegue garantir que é administrada a dose correta. Apesar de poder achar que outra caneta é mais adequada ou atrativa, senão for do laboratório da insulina, pode estar a administrar insulina incorretamente.

Deve igualmente garantir que a insulina foi armazenada corretamente (consulte as recomendações descritas no artigo “Verão com Diabetes Mellitus tipo 1”).

Se a insulina tiver sido retirada do frigorífico, torna-se importante deixá-la pelo menos 15 minutos à temperatura ambiente para não estar fria aquando da administração, pois esse fato pode tornar a administração dolorosa.

Por outro lado, existem insulinas turvas e outras translúcidas. As turvas necessitam de ser agitadas para ficarem homogéneas (toda igual em todo o frasco). As insulinas translúcidas não devem ser agitadas e se o fizer por engano, deve deixá-las repousar entre 15-30 minutos.

Quando for administrar a insulina, não precisa de desinfetar o local da punção, pois os produtos utilizados para esse fim podem dissolver o silicone lubrificante presente nas agulhas e tornar a administração dolorosa. Nesse sentido, procure lavar as mãos e secá-las bem antes da administração, para efetuar o manuseamento do material. Num contexto hospitalar essa desinfeção pode ser necessária pois é um sítio muito propício a infeções. Se isso acontecer, deve-se esperar o tempo suficiente para secar o desinfetante.

Tendo em conta vários autores como a American Diabetes Association (2002), Kalra, S., et al (2012) e Danne Thomas, et al (2014), podemos definir a técnica de administração nos seguintes passos:

  1. Colocar uma agulha nova;
  2. Agitar a caneta de insulina com a insulina lá introduzida (caso a insulina seja turva; se for translúcida não necessita de efetuar este passo);
  3. Marcar 2 a 4 unidades de insulina;
  4. Retirar a tampa da caneta;
  5. Retirar a proteção da agulha;
  6. Virar a caneta para cima e purgar as unidades marcadas até visualizar um esguicho. Este passo tem como objetivo retirar o ar presente no cartucho e agulha. Se este passo não for considerado e não for feito, pode estar a administrar menos unidades do que as que marcou na caneta. Senão visualizar um esguicho, pode remarcar mais 2 a 4 unidades e repetir o procedimento;
  7. Marcar a dose de insulina prescrita;
  8. Fazer uma prega cutânea para facilitar a introdução da agulha (opcional);
  9. Introduzir a agulha a 90º (a direito);
  10. Desfazer a prega cutânea (se a tiver feito);
  11. Carregar no botão da caneta até este ir ao “0”, pois só assim se sabe que a totalidade da dose foi administrada;
  12. Aguardar 10 a 15 segundos para garantir que o todo o líquido entrou e não se desperdiçou nenhuma gota. Senão o fizer pode notar que se desperdiçaram algumas gotas e estas podem fazer diferença no bom controlo metabólico;
  13. Retirar a agulha da pele;
  14. Retirar a agulha da caneta e desperdiçá-la de forma segura num recipiente rígido que seja difícil de perfurar (ex. garrafa de água vazia – quando esta estiver cheia pode fechá-la e deitá-la no lixo comum).

É comum pensar-se que não é necessário substituir a agulha regularmente. Segundo os fabricantes das agulhas deve-se mudar de agulha a cada administração. A não substituição das agulhas pode dificultar o bom controlo da diabetes, pois a ponta da agulha com as utilizações perde a forma e não injeta a insulina com a mesma eficácia. Para além disso, a proteção lubrificante de silicone, que reveste a agulha, vai-se desgastando, tornando a administração de insulina dolorosa. A não mudança da agulha de insulina pode também aumentar o risco de infeções e reações cutâneas no local da injeção.

Existem várias marcas de agulhas que são comparticipadas a 100%, com vários tamanhos e espessuras, pelo que é aconselhado mudar a agulha a cada administração. Aconselhe-se com a sua equipa de saúde sobre qual o tamanho e espessura de agulha mais indicado.

Locais de Administração

Locais de Administração

Para além de ser muito importante administrar insulina com uma técnica correta, deve-se também ter em conta o local onde se administra a mesma. A insulina deve ser administrada no tecido subcutâneo. Segundo Danne Thomas, et al (2014) os locais mais aconselhados são as nádegas (região superior e externa), abdómen (desde que afastado pelo menos 2 dedos do umbigo e abaixo da linha da última costela), coxas (região lateral) e braços (região posterior).
Apesar de se poder administrar insulina em todos estes locais, a sua absorção não é igual em todos eles. O sítio de absorção mais rápida é o abdómen, pelo que é aconselhada a administração de insulinas rápidas e ultra rápidas nesse local, para otimizar a sua ação. As coxas, braços e nádegas são locais de absorção mais lenta, pelo que normalmente são utilizados para os outros tipos de insulina (Danne Thomas, et al , 2014, p.121).

Quando se escolhe o local de administração de insulina, deve-se também ter em conta a atividade que se irá realizar e, consequentemente, qual o grupo muscular que irá ser exercitado. Por exemplo, se alguém administrar insulina nas coxas e de seguida for correr, poderá ter maior risco de ocorrerem hipoglicemias, pois há um maior fluxo sanguíneo ao local devido ao exercício e, previsivelmente, a absorção de insulina será mais rápida.

Assim é relativamente comum que muitas pessoas administrem as insulinas rápidas e ultra rápidas no abdómen (para serem mais eficazes) e as lentas nas nádegas (para não correrem o risco de hipoglicemia no quotidiano, quando trabalham ou fazem exercício).

De acordo com a ADA (2002), a alteração dos locais de administração não deve ser efetuada administrando cada dia num local diferente. Não só não se irá retirar a máxima eficácia da insulina (como vimos anteriormente) como cria grandes flutuações na absorção de insulina. Se uma pessoa administra nos braços um dia, noutro nas coxas, noutro nas nádegas e assim em diante, como a absorção é diferente em cada um deles, esse fato vai criar variações que depois não possibilitam a comparação dos resultados e ajustes de doses.

A técnica de rotação dos locais com a técnica circular ou do “relógio” também não será a melhor alternativa, pois limita muito o espaço onde é administrada a insulina e isso pode gerar a acumulação da mesma e consequente perda de eficácia. Assim, a melhor forma de ir variando os locais de administração, segundo a ADA (2002) é ir administrando a insulina em diferentes pontos do mesmo local, um local de cada vez.

Outros factos sobre a administração de insulina

Quando se administra a insulina existem aspetos que podem ser minimizados e que devem ser tidos em conta. As lipodistrofias, a dor, as reações locais à administração de insulina, a massa corporal, a temperatura do corpo, a profundidade da administração e a dose administrada podem gerar alterações na resposta do corpo à insulina .

Quando se administra insulina podem aparecer alterações a nível do tecido subcutâneo, onde é introduzida a insulina. Essas alterações denominam-se de lipodistrofias. Estas podem ser classificadas em lipohipertrofias e lipoatrofias. As lipodistrofias estão relacionadas com a mudança da agulha com pouca frequência, à deficiente variação dos locais de administração e duração da terapêutica.

Se não se variar o local, a insulina começa a acumular no mesmo local, não fazendo o efeito esperado e, com isso, pode haver uma pioria do controlo da diabetes – a essas acumulações denominam-se de lipohipertrofias. Concomitantemente, quando essa insulina acumulada é libertada (por uma massagem, impacto, etc.) pode haver um fluxo de insulina que não é esperado e originar uma hipoglicemia. Assim, deve recorrer à equipa de saúde que o acompanha periodicamente, para avaliar quais os locais onde deve administrar insulina, de forma a otimizar a sua terapêutica. Se tiver lipohipertrofias não massage o local e não necessita de colocar nenhum creme especial. O corpo irá absorver esse excesso. Não se sabe quanto tempo esse processo demorará, nem se irá desaparecer completamente, pois isso depende de indivíduo para indivíduo.

As lipoatrofias são muito mais raras e caracterizam-se por uma destruição do tecido subcutâneo no local onde é administrada a insulina. Caso suspeite de alguma alteração no local de injeção de insulina, deve contactar a sua equipa de saúde para ser avaliado.

A dor é igualmente uma preocupação de quem administra insulina. Apesar de esta ser uma experiência subjetiva e individual, existem alguns cuidados que a minimizam como administrar a insulina com uma técnica correta, com o ângulo correto da agulha, com a profundidade correta (pois se for administrada intramuscular é mais dolorosa e a duração da insulina mais rápida e imprevisível), com a agulha adequada e insulina a temperatura ambiente.

As reação alérgicas à insulina e ao material das agulhas são muito raras. Hoje em dia as insulinas são muito semelhantes às produzidas pelo corpo e são produzidas em laboratório. Se notar alguma vermelhidão, inchaço ou alteração no local de administração de insulina, deve informar a equipa de saúde que o acompanha.

Segundo Danne Thomas, et al (2014), a dose também influencia a absorção de insulina, pois quanto maior for a dose a entrar no corpo, mais lenta se torna a sua absorção. De acordo com os mesmos autores, a quantidade de tecido subcutâneo também tem influência na absorção da insulina, pois as crianças e as pessoas mais magras têm normalmente uma absorção mais rápida da insulina, enquanto que as pessoas obesas têm uma absorção mais lenta.

Por último, a temperatura do corpo e do ambiente também influenciam a velocidade com que a insulina é absorvida pelo corpo. Nos dias mais quentes ou quando a pessoa tem febre, a absorção de insulina é mais rápida, devido a um fenómeno de vasodilatação que ocorre normalmente no corpo (Danne Thomas, et al,2014, p.122)

Esperamos que estas dicas o ajudem a controlar melhor a sua diabetes!

 

Bibliografia

Danne Thomas, et al (2014). ISPAD Clinical Practice Consensus Guidelines 2014 Compendium: Phases of type 1 diabetes in children and adolescents. Pediatric Diabetes, volume 15 (Suplemento 20), P. 115-134.
American Diabetes Association (2002). Insulin administration. Diabetes Care, volume 25 (Suplemento 1), P. S112-S115.
Dolinar, R. (2009). The importance of goog insulin injection practices in diabetes management. US Endocrionology, volume 5 (Suplemento 1), P.49-52.
Kalra, S., et al (2012). Forum for Injection Techniques, India: The First Indian Recommendations for Best Practice in Insulin Injection Technique. Indian Journal of Endocrinology and Metabolism. Volume 16 (Suplemento 6), P. 876–885.

 

AUTOR: 

Duarte Matos

Enf. Duarte Matos,
Enfermeiro da Pediatria da APDP

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