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Características

Campos de Férias para Jovens com Diabetes

O meu primeiro campo de férias

Tenho diabetes tipo 1 desde 1995. Fui ao meu primeiro Campo de Férias em 1997. Tinha 13 anos. Fui ao segundo em 1998. E não parei mais...

Fui monitora a primeira vez em 2006, tinha 22 anos. Desde 2013 sou monitora-coordenadora do Campo de Férias da APDP.

Antes de ter diabetes, fui a um campo de férias da empresa dos meus pais, mas não aguentei o tempo todo, e os meus pais foram buscar-me a meio da semana. Enquanto menina com 12 anos que vai pela primeira vez para um campo de férias para jovens com diabetes durante 1 semana longe dos pais e sem conhecer ninguém, o panorama inicial é assustador. A condição era “Mãe, se eu te telefonar a pedir para me ires buscar, vais logo!”. E assim ficou combinado. Não tínhamos telemóveis e só falávamos com a família a um período definido do dia. Eles ligavam para um número fixo, e íamos um a um dando notícias aos pais. Para surpresa de todos, em nenhum dia eu pedi que me fossem buscar. Não queria ir embora, nem quando o campo acabou! O embate inicial é “Não quero ir para longe da minha mãe”, mas ao sermos incentivados a ir, e acabamos por ir mesmo com medo, tudo muda. Para melhor. E para sempre.

Não menos que eu, a minha mãe sentiu medo e insegurança. Não conhecia ninguém do grupo, e tinha falado por telefone com um dos organizadores que era também um dos monitores mais velhos, em quem confiou às cegas. Viu algumas notícias dos campos de férias, leu testemunhos que saiam ocasionalmente em algum jornal (com o meu querido amigo Nuno Lemos) ou numa newsletter, pois nesse tempo não havia internet. Como eu sempre tinha demonstrado vontade de conhecer outras crianças com diabetes, esse tópico estava facilitado. Pior era ficar longe de casa. Arrisco a dizer que a diabetes também nos traz muito mimo.

Foi em Sintra. Bom para começar, pertinho de casa, com os meus pais a poucos kms de distância. Fomos apresentados à equipa de saúde, e aos monitores. Estávamos divididos por grupos. Os pais foram embora. E começou a aventura. Fiz amigos para a vida.

Eu tinha a ambição de ser nadadora de competição, mas a insegurança era muita por ter diabetes. Neste campo de férias expus os meus sentimentos, falei nos meus medos, assumi que achava que a diabetes me podia impedir de concretizar o meu sonho, abri o meu coração aos meus novos amigos e companheiros de vida. Isto de falarmos “a mesma língua” e não precisarmos explicar tudo cria empatias jamais possíveis de replicar. Foi reconfortante e estimulante. Passei a acreditar que era possível fazer tudo tendo diabetes. Com as devidas precauções e com uma responsabilidade redobrada. Sobretudo, com autonomia que se conquista nestas ocasiões longe dos nossos cuidadores diários.

Carta de Catarina Perdigão

 

Após o segundo campo de férias

Após o segundo campo de férias, deixei de ir para dar lugar a outros. Não por opção minha, entenda-se. Era uma imensa pena que eu tinha, mas na altura havia “lotação esgotada”. No entanto, participava em outras atividades que iam sendo organizadas ao longo do ano e não perdi o rasto aos meus amigos. Alguns dos quais até hoje. E escrevíamos cartas, muitas cartas. Tenho-as a todas guardadas. Numa caixa. E no coração.

Em 2006 fui convidada pela equipa de saúde da APDP para ser monitora. Foi das melhores experiências da minha vida! Poder fazer pelos mais novos o que em tempos outros tinham feito por mim foi o culminar da paixão pelos campos de férias, por tudo o que estes momentos significam para mim ainda hoje.

A partilha e a empatia vivida nos campos de férias dá-nos a certeza de que a Educação por Pares faz maravilhas e traz alento à nossa vida. Ajuda-nos a superar medos e angústias, e a ver nos mais velhos exemplos de vida e de saúde, acreditando que também podemos ter uma vida saudável e feliz tendo diabetes.

Desde os aspetos mais sentimentais aos mais práticos, há tempo e espaço para falar de tudo. Como dar a insulina à frente das outras pessoas, como fazer as glicemias na escola, como atuar no desporto, como comer doces (sim, na altura era mesmo proibido), o que responder quando nos chamam “coitadinhos” ou quando nos desejam “as melhoras”, o que fazer quando a glicemia sobe ou desce demais inesperadamente. Tantos truques partilhados e tanta confiança em nós próprios no final de cada conversa.

Campo de férias - 01

A equipa de saúde da APDP

Relativamente à equipa de saúde da APDP, que nos acompanha ao longo do ano, sinto que há muitas vantagens quando estes momentos são partilhados e vividos também por eles. Sentimos que “vestem a camisola” ao passar connosco tantos dias seguidos, ao estarem connosco sempre que damos a insulina, sempre que tomamos as decisões e são (ou não) acertadas, sempre que vivenciam o nosso dia-a-dia e as oscilações de glicemia que são inexplicáveis e na consulta não temos como as descrever. Desde então, as relações melhoram e o respeito e afeto perduram para a vida.

Campo de férias - 02

 

O objetivo

Com o objetivo de promover a autonomia dos jovens na diabetes, os campos de férias existem para que se trabalhem vários aspetos do tratamento diário que a diabetes exige, e no final da semana a evolução é notória. É o primeiro passo para que continuem a fazer o que aprenderam, mas na sua vida em casa, sem monitores do Núcleo Jovem ou sem a equipa de saúde a aconselhar e a ajudar!

Campo de férias - 03

Há coisas que nunca mudam, e os sentimentos partilhados e vividos nos campos de férias são exemplo disso. Os anos passam, e não há melhor semana para a minha motivação no tratamento da diabetes que a tão desejada semana do campo de férias!

Um grande beijo a todos os que conheci nos vários campos de férias e que continuam de alguma forma ligados a mim: Nuno Lemos, o Diogo Lemos, o Carlos Rui, o Fábio Campeão, a Catarina Perdigão, o Paulo Ponte, o irmão do Paulo, o Tiago Gouveia, a Beatriz, o Tiago Lemos, a Ema, a Martha, o Tiago Pio (onde andas moço?) a Zita, a Sofia Casais, o João Nabais, o Carlos Lagareiro, a Joana Castanho, etc etc etc... Todos vocês sabem quem são!

AUTORA:

Alexandra Costa

Alexandra Costa, DT1 – Coordenadora do NJA (Núcleo Jovem da APDP)

 

 

 

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